Discurso de Miguel Pereira de 1916, apresentação de Dominichi Miranda de Sá
“Brazil: A Vast Hospital”: The metaphor, coined in a 1916 speech by the physician, Miguel Pereira became one of the most important interpretations of Brazil and resounded as much in intellectual debate over nationalism as in public health policy-making over the subsequent decades. The text of Pereira’s address is reproduced from the Jornal Comércio, 11 October 1916, and is accompanied by a magazine cover from the era depicting Rui Barbosa discovering the typical sick country dweller of the interior, and a photograph of important public health reformer, Belisário Penna.
Entre as interpretações do Brasil esboçadas por médicos destaca-se a metáfora do “país doente”, ou do “Brasil imenso hospital”. A expressão cunhada em 1916 por Miguel Pereira repercutiu tanto na produção intelectual sobre a nacionalidade quanto nas políticas públicas de saúde nas décadas seguintes. Tornou-se um emblema das posições críticas à ordem social e política da República brasileira e foi apontada como marco de origem da campanha nacionalista pelo saneamento rural (Castro-Santos, 1985, 1987; Lima & Hochman, 1996; Hochman, 1998; Lima, 1999).
A frase de Miguel Pereira resumia sua contrariedade, em plena Primeira Guerra Mundial, diante do pronunciamento do deputado federal brasileiro Carlos Peixoto que declarara estar disposto, em caso de invasão estrangeira, a ir aos sertões e convocar os caboclos para o exército brasileiro de modo a defender o país. Ela foi proferida em outubro de 1916, em discurso de saudação a Aloysio de Castro, diretor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, pelo êxito da delegação brasileira em congresso médico realizado em Buenos Aires. A imagem do Brasil como hospital foi ainda retomada, dias depois, por Miguel Pereira em homenagem prestada ao cientista e membro da delegação brasileira Carlos Chagas. No caso dessa segunda homenagem, o orador acentuou a importância da descoberta, por esse cientista brasileiro, da endemia rural tripanossomíase americana, ou doença de Chagas, que grassava, segundo seu relato, em extensas áreas do território brasileiro (Kropf, 2006).
A frase de Miguel Pereira, proferida no contexto da descoberta e da consolidação da doença de Chagas como a moléstia que inutilizaria os brasileiros, e da repercussão dos relatórios médicos preparados por cientistas do Instituto Oswaldo Cruz em expedições científicas ao interior do Brasil, contribuiu para que se estabelecesse a equação sertão = doença e se apontasse na adoção de políticas públicas de saúde os pilares de um projeto para o Brasil que superasse as condições de atraso e criasse bases efetivas para a consolidação do Estado Nacional (Santos, 1985, 1987; Hochman, 1998; Lima, 1999).
Capa da revista O Malho, de maio de 1919, com charge de J. Carlos na qual ilustra “a descoberta do verdadeiro Brasil” (o país doente, do Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato) por Rui Barbosa. O chargista faz referência a uma conferência de Barbosa intitulada “A questão social e política do Brasil”. [Acervo da Casa de Rui Barbosa]
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